Em defesa dos espetadores
por FERREIRA FERNANDES Hoje 33 comentários
Como estava no ano passado a dizer, de "optimista" passei a otimista. Só não foi de um dia para o outro porque o meu jornal não se publica a 1 de janeiro. Olha, já escrevo os meses só com minúsculas! Agora que o fim do mês chega no dia 15 e prolonga-se, prolonga-se, cada vez maior, os princípios do mês ficam mais pequeninos... É irónico, gosto. E também gosto do Novo Acordo Ortográfico (NAO) porque é um acrónimo corajoso que incita os opositores a fazer campanhas: "Diga NÃO ao NAO!" Eu disse sim. Um amigo meu também disse sim mas contesta o "espetador". Ele diz que "espetador", sem o antigo "c", fere-o. Comecei por brincar, dizendo que ferir é próprio de "espetador", mas depois de pensar fiquei mais convicto, compactamente convicto, aliás, de que com aquela queda de "c" damos mais verdade à palavra, aproximando-a da sua função moderna. Um antigo assistente de espetáculo era uma testemunha passiva, podia ser simplesmente "espectador". Hoje, porém, é alguém que incita, espicaça, enfim, espeta o artista. Quando Cristiano Ronaldo, ao preparar a marcação dum livre, se obriga a recuar com passadas abertas, é porque sente no lombo as nossas farpas de espetadores. Isso quando não lhe espetamos com lasers nos olhos. Então, tudo bem com o novo acordo? Não, repugna-me o perentório. Se uma pessoa já não pode dizer "peremptório", sublinhando pedantemente o "ptó", a palavra deixa de fazer sentido. Perentório é "peremptório" ou não é.
Sem comentários:
Enviar um comentário