[Gonçalo Frota, Público, 23/11]
Os samurais também choram
Ryuichi Sakamoto
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. Segunda-feira, 21h00
Sala cheia
De uma maneira ligeiramente rebuscada, percebe-se na música de Ryuichi Sakamoto a sua convicção ecologista. Sobretudo em concerto, o respeito pela composição, a permanente aversão aos excessos e aos desperdícios, a utilização absolutamente justificada de cada nota parece, de facto, ecoar esse traço pessoal de Sakamoto. O concerto na Gulbenkian, esgotado há semanas, foi disso magnífica prova: cada nota, como sempre, foi colocada no sítio num lento e tocante movimento de delicadeza.
E toda esta abordagem, que era já a bússola da gravação em trio em 1996 (do mesmo ano), foi refinada com os anos que Sakamoto passou entretanto ao lado de gentes da experimentação electrónica, a rarefazer as melodias do seu piano. Daí que um concerto como este exija respirar fundo e deixar o mundo lá fora, obrigando a uma tão bela quanto violenta desaceleração do ritmo e do ruído das cidades. A música de Sakamoto vem em contraciclo – o que, em certa medida, resolve com eficácia aquele que o músico considera o grande desafio do seu trio clássico: fazê-lo soar contemporâneo, embora numa prática exemplar de depuração e obsessão melódica raras nos nossos dias.
Esta solução impôs-se de forma contundente com uma abertura soberba: improvisação nas cordas do piano, seguida do tema Fukushima #01 (homenagem às vítimas do acidente nuclear). Sozinho ao piano, Sakamoto começou por tratar o instrumento como se pudesse parar em seguida e reclamar que lhe tinham dado teclas a mais. Parecia, às tantas, estar a musicar uma chuva em câmara lenta que possivelmente caía lá fora. Esta mesma postura marcaria uma das principais diferenças de arranjos entre 1996 e o triode 2011 – Jaques Morelenbaum no violoncelo, um colosso de elegância, e Judy Kang no violino –, aplicando travões num tema maravilhosamente frágil e já de si pouco dado a pressas, Merry Christmas, Mr. Lawrence.
Perante uma sala habituada às regras da música clássica, foi curioso ver como Sakamoto se sentiu obrigado a dar dois acenos com a sua cabeleira branca sinalizando que se podia aplaudir após o primeiro tema – são canções e não andamentos. Mas a mensagem estava já presente no palco, com uma humorística subtileza de Judy Kang. Em frente ao lugar da violinista esteve sempre um violino modernaço modelo flying V – um fetiche dos guitarristas de heavy metal – em que Kang não encostou um dedo durante toda a actuação.
Pontuando o concerto com inéditos (enquanto trio) – o piano a patrocinar a procura entre violino e violoncelo em Still life in A ou o magnífico piano com rasto de
Solitude –, as grandes interpretações vieram do reportório de 1996, em temas como Bibo no Aozora, The last emperor e a excelente dupla final mais dramática de M.A.Y. in the backyard e 1919 (que soa como um bombardeiro da I Guerra Mundial). Nos três encores, houve um Chanson pour Michelle (de Tom Jobim) pedido via Twitter e a surpreendente Ichimei, escrita
para o filme homónimo do sanguinolento Takashi Miike – o que nos reconduz ao essencial: com Sakamoto, os samurais também choram, não há friezas impenetráveis.
[Exercício facultativo: sublinhar as passagens que nos parecem merecê-lo.]
As passagens que me parecem mais interessantes:
ResponderEliminar"Parecia, às tantas, estar a musicar uma chuva em câmara lenta que possivelmente caía lá fora"
"aplicando travões num tema maravilhosamente frágil"
"Perante uma sala habituada às regras da música clássica, foi curioso ver como Sakamoto se sentiu obrigado a dar dois acenos com a sua cabeleira branca sinalizando que se podia aplaudir "
"Em frente ao lugar da violinista esteve sempre um violino modernaço modelo flying V ... em que Kang não encostou um dedo durante toda a actuação."