Grandes manobras
Vasco Pulido Valente in Público, 4/12/11)
Sarkozy e Merkel, ou melhor, Merkel e Sarkozy declararam a sua vontade de “repensar” e “refundar” a “Europa”. Por cá pouco se disse sobre o assunto: na televisão, as comemorações do fado e um naufrágio de pescadores passaram à frente, até no suposto serviço público da RTP. Ninguém se perguntou ou discutiu o que as reformas da Alemanha e da França queriam dizer para nós. Vamos ficar melhor, pior, na mesma? Uma coisa é certa: os dois poderes dominantes da “Europa” finalmente perceberam o que toda a gente já lhes tinha explicado ou, por outras palavras, que o euro não podia sobreviver sem um governo económico, a que se chama agora “governança” ou “governação” para não assustar, mas que no fundo implica uma política fiscal comum, um tesouro comum e um banco emissor comum. E é aqui que as dificuldades começam. Sendo, em princípio, a UE uma associação de Estados democráticos, em cada um deles o Orçamento é da exclusiva competência do parlamento nacional: um ponto que a própria sra. Merkel insistiu em lembrar. Nada garante, por isso, que os 17 países da “zona euro” cumpram sempre e rigorosamente o que em Bruxelas lhes mandam fazer.
Quanto ao tesouro comum e ao banco emissor, a Alemanha não os tenciona aceitar, sabendo perfeitamente que os pagaria, em prejuízo doméstico e em prejuízo de uma eventual expansão a leste. Só há assim uma solução à vista. Fingir, como de resto sempre se fingiu, que a UE respeita a democracia, mas de caminho arranjar um directório que determine e vigie os membros do “clube” que por qualquer motivo se tornem “suspeitos” e, coisa fácil, pôr na ordem com penas “pesadas” quem prevaricar.
A isto a sra. Merkel dá o nome simpático e tranquilizador de “união fiscal”, um arranjo em que a Alemanha mandará sem risco e a França de quando em quando meterá a colher, para puros propósitos de camuflagem. Claro que este processo tarde ou cedo criará uma “Europa” de três patamares: dois dentro na “zona euro” (o primeiro para os pobres e o segundo para os ricos) e um fora, que receberá, ou não receberá, as benesses que Bruxelas lhe entender esmolar. Quanto a Portugal, se por acaso se portar bem, continuará na sua habitual miséria (pelo menos, 20 anos calculam os peritos), se
entretanto não pisar o risco e for expulso (do euro) por indecente e má figura.
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