Ontem, estávamos nós a ouvir Sakamoto na sala (enquanto trabalhávamos, atenção!), estava Sakamoto a trezentos metros dali a dar um magnífico concerto - de que aqui fica um resto. A crítica do Público de hoje é um exemplo positivo de como se faz uma crítica: agarrando nos factos-do-texto (o concerto real com as músicas reais) e, depois, com essas pinças chamadas palavras, delicadamente tentar "traduzir" o espírito da forma e a forma do espírito.
Eu diria que esta aula foi, à nossa maneira, um momento poético. E eu gosto disso: de quando uma aula, por mérito das partes intervenientes e de algum acaso à mistura, consegue ter qualquer coisa de musical.
Para mim valeu por duas, até porque amanhã vou ter algum trabalho (mas também prazer, espero) a ler os vossos textos.
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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Ryuichi Sakamoto
[Gonçalo Frota, Público, 23/11]
Os samurais também choram
Ryuichi Sakamoto
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. Segunda-feira, 21h00
Sala cheia
De uma maneira ligeiramente rebuscada, percebe-se na música de Ryuichi Sakamoto a sua convicção ecologista. Sobretudo em concerto, o respeito pela composição, a permanente aversão aos excessos e aos desperdícios, a utilização absolutamente justificada de cada nota parece, de facto, ecoar esse traço pessoal de Sakamoto. O concerto na Gulbenkian, esgotado há semanas, foi disso magnífica prova: cada nota, como sempre, foi colocada no sítio num lento e tocante movimento de delicadeza.
E toda esta abordagem, que era já a bússola da gravação em trio em 1996 (do mesmo ano), foi refinada com os anos que Sakamoto passou entretanto ao lado de gentes da experimentação electrónica, a rarefazer as melodias do seu piano. Daí que um concerto como este exija respirar fundo e deixar o mundo lá fora, obrigando a uma tão bela quanto violenta desaceleração do ritmo e do ruído das cidades. A música de Sakamoto vem em contraciclo – o que, em certa medida, resolve com eficácia aquele que o músico considera o grande desafio do seu trio clássico: fazê-lo soar contemporâneo, embora numa prática exemplar de depuração e obsessão melódica raras nos nossos dias.
Esta solução impôs-se de forma contundente com uma abertura soberba: improvisação nas cordas do piano, seguida do tema Fukushima #01 (homenagem às vítimas do acidente nuclear). Sozinho ao piano, Sakamoto começou por tratar o instrumento como se pudesse parar em seguida e reclamar que lhe tinham dado teclas a mais. Parecia, às tantas, estar a musicar uma chuva em câmara lenta que possivelmente caía lá fora. Esta mesma postura marcaria uma das principais diferenças de arranjos entre 1996 e o triode 2011 – Jaques Morelenbaum no violoncelo, um colosso de elegância, e Judy Kang no violino –, aplicando travões num tema maravilhosamente frágil e já de si pouco dado a pressas, Merry Christmas, Mr. Lawrence.
Perante uma sala habituada às regras da música clássica, foi curioso ver como Sakamoto se sentiu obrigado a dar dois acenos com a sua cabeleira branca sinalizando que se podia aplaudir após o primeiro tema – são canções e não andamentos. Mas a mensagem estava já presente no palco, com uma humorística subtileza de Judy Kang. Em frente ao lugar da violinista esteve sempre um violino modernaço modelo flying V – um fetiche dos guitarristas de heavy metal – em que Kang não encostou um dedo durante toda a actuação.
Pontuando o concerto com inéditos (enquanto trio) – o piano a patrocinar a procura entre violino e violoncelo em Still life in A ou o magnífico piano com rasto de
Solitude –, as grandes interpretações vieram do reportório de 1996, em temas como Bibo no Aozora, The last emperor e a excelente dupla final mais dramática de M.A.Y. in the backyard e 1919 (que soa como um bombardeiro da I Guerra Mundial). Nos três encores, houve um Chanson pour Michelle (de Tom Jobim) pedido via Twitter e a surpreendente Ichimei, escrita
para o filme homónimo do sanguinolento Takashi Miike – o que nos reconduz ao essencial: com Sakamoto, os samurais também choram, não há friezas impenetráveis.
[Exercício facultativo: sublinhar as passagens que nos parecem merecê-lo.]
Os samurais também choram
Ryuichi Sakamoto
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. Segunda-feira, 21h00
Sala cheia
De uma maneira ligeiramente rebuscada, percebe-se na música de Ryuichi Sakamoto a sua convicção ecologista. Sobretudo em concerto, o respeito pela composição, a permanente aversão aos excessos e aos desperdícios, a utilização absolutamente justificada de cada nota parece, de facto, ecoar esse traço pessoal de Sakamoto. O concerto na Gulbenkian, esgotado há semanas, foi disso magnífica prova: cada nota, como sempre, foi colocada no sítio num lento e tocante movimento de delicadeza.
E toda esta abordagem, que era já a bússola da gravação em trio em 1996 (do mesmo ano), foi refinada com os anos que Sakamoto passou entretanto ao lado de gentes da experimentação electrónica, a rarefazer as melodias do seu piano. Daí que um concerto como este exija respirar fundo e deixar o mundo lá fora, obrigando a uma tão bela quanto violenta desaceleração do ritmo e do ruído das cidades. A música de Sakamoto vem em contraciclo – o que, em certa medida, resolve com eficácia aquele que o músico considera o grande desafio do seu trio clássico: fazê-lo soar contemporâneo, embora numa prática exemplar de depuração e obsessão melódica raras nos nossos dias.
Esta solução impôs-se de forma contundente com uma abertura soberba: improvisação nas cordas do piano, seguida do tema Fukushima #01 (homenagem às vítimas do acidente nuclear). Sozinho ao piano, Sakamoto começou por tratar o instrumento como se pudesse parar em seguida e reclamar que lhe tinham dado teclas a mais. Parecia, às tantas, estar a musicar uma chuva em câmara lenta que possivelmente caía lá fora. Esta mesma postura marcaria uma das principais diferenças de arranjos entre 1996 e o triode 2011 – Jaques Morelenbaum no violoncelo, um colosso de elegância, e Judy Kang no violino –, aplicando travões num tema maravilhosamente frágil e já de si pouco dado a pressas, Merry Christmas, Mr. Lawrence.
Perante uma sala habituada às regras da música clássica, foi curioso ver como Sakamoto se sentiu obrigado a dar dois acenos com a sua cabeleira branca sinalizando que se podia aplaudir após o primeiro tema – são canções e não andamentos. Mas a mensagem estava já presente no palco, com uma humorística subtileza de Judy Kang. Em frente ao lugar da violinista esteve sempre um violino modernaço modelo flying V – um fetiche dos guitarristas de heavy metal – em que Kang não encostou um dedo durante toda a actuação.
Pontuando o concerto com inéditos (enquanto trio) – o piano a patrocinar a procura entre violino e violoncelo em Still life in A ou o magnífico piano com rasto de
Solitude –, as grandes interpretações vieram do reportório de 1996, em temas como Bibo no Aozora, The last emperor e a excelente dupla final mais dramática de M.A.Y. in the backyard e 1919 (que soa como um bombardeiro da I Guerra Mundial). Nos três encores, houve um Chanson pour Michelle (de Tom Jobim) pedido via Twitter e a surpreendente Ichimei, escrita
para o filme homónimo do sanguinolento Takashi Miike – o que nos reconduz ao essencial: com Sakamoto, os samurais também choram, não há friezas impenetráveis.
[Exercício facultativo: sublinhar as passagens que nos parecem merecê-lo.]
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