segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O ESPELHO DE NARCISO

Quando Narciso morreu, as flores do campo curvaram-se de dor, e imploraram ao rio que lhes desse umas gotas de água, para poderem chorar.


- Ainda que metade de todas as minhas gotas de água fossem lágrimas - respondeu o rio - não seriam suficientes para chorar Narciso. Eu amava-o.


- E como podia alguém não amar Narciso? - perguntaram as flores. - Ele era tão belo.


- Ele era belo? - perguntou o rio.


- Quem melhor do que tu deveria sabê-lo, -perguntaram as flores - se todos os dias, deitado na tua margem, ele via o reflexo da sua beleza espelhado nas tuas águas.


- Mas eu amava-o - murmurou o rio - porque quando ele se inclinava sobre mim, eu via o reflexo da minha beleza nos seus olhos.




WILDE, Oscar, Histórias à volta da mesa, Coisas de Ler, 2008

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